Florença, Milão e Roma: Os caminhos de Leonardo

[Publicado em 23/08/2019]

Em 2 de maio deste ano completaram-se 500 anos da morte de Leonardo da Vinci. Criador de duas das pinturas mais famosas de todos os tempos – A Última Ceia e Mona Lisa –, ele viveu a maior parte dos seus 67 anos entre Florença, Milão e Roma. Nessas cidades, além das pinturas, desenvolveu estudos revolucionários sobre anatomia, fósseis, máquinas voadoras, geologia, ótica, dinâmica das águas e armamentos, entre outros. Também passou por problemas familiares, conflitos amorosos e muitas vezes não conseguiu controlar sua incrível tendência para a procrastinação, tendo deixado inacabadas várias obras-primas.

Florença, Milão e Roma

É o que conta o livro Leonardo da Vinci (Editora Intrínseca), de Walter Isaacson, lançado em 2017. Baseado nas mais de 7.200 páginas dos cadernos escritos pelo próprio Leonardo com anotações e rascunhos, o livro, além de apresentar os grandes feitos de uma das figuras mais extraordinárias da história, pinta o retrato de um Leonardo humano, o que só valoriza ainda mais a genialidade de sua obra.

[su_spacer][su_spacer]

Isaacson também descreve o ambiente dos lugares onde o mestre viveu, a começar pelo vilarejo de Vinci, nas colinas da Toscana, a cerca de 30 quilômetros a Oeste de Florença. Ali, em 15 de abril de 1452, nasceu Leonardo – a pia batismal na igreja paroquial onde ele foi batizado ainda está lá –, filho ilegítimo de um tabelião de classe média.

Com cerca de 12 anos, ele foi levado pelo pai para viver em Florença, onde se tornaria aprendiz no ateliê de Andrea del Verrocchio, engenheiro e artista. Leonardo colaborou em muitas pinturas do mestre e participou de uma monumental obra de engenharia: a instalação de uma esfera de 2 toneladas no topo da cúpula da espetacular Catedral de Florença.

Florença
Em Florença, Leonardo participou da instalação de uma esfera de 2 toneladas no topo de cúpula da espetacular catedral

Ainda sob a orientação de Verrocchio, Leonardo começou a produzir algumas pinturas sozinho. Entre elas, o famoso quadro A Anunciação, que se encontra em exposição na Galleria degli Uffizi, palácio em Florença que abriga um dos mais antigos museus do mundo. Alguns anos depois, em 1477, abriu seu próprio ateliê, mas, no período de cinco anos, foi chamado para apenas três trabalhos, um dos quais nunca começou e dois que abandonou sem concluir. Um deles foi a pintura de um retábulo para a capela do Palazzo della Signoria, um dos símbolos de Florença também conhecido como Palazzo Vecchio.

Florença
Leonardo nunca concluiu a pintura de A Batalha de Anghiari, que seria feita no Salão do Conselho de Florença, no Palazzo Vecchio

Problemas emocionais e a sensação de fracasso fizeram com que Leonardo, então com 30 anos, se mudasse para Milão, que na época tinha 125 mil habitantes, o triplo da população de Florença. Nos 17 anos que viveu na capital da Lombardia, ele produziu espetáculos para a corte, participou de projetos para a construção de um tiburio para o topo da Catedral de Milão, que já tinha 100 anos, desenhou o famoso Homem Vitruviano e pintou uma de suas obras-primas: A Última Ceia, na igreja de Santa Maria delle Grazie.

“Quando Leonardo estava pintando A Última Ceia, espectadores o visitavam e ficavam sentados em silêncio, apenas para assistir a ele trabalhando”, conta Isaacson. O autor dá detalhes da execução da obra, que retrata as reações dos apóstolos depois que Jesus diz que um deles o trairia, explica por que ela se deteriorou com o tempo e todos os trabalhos desenvolvidos para sua restauração.

Florença, Milão e Roma
A lindíssima Catedral de Milão (acima). Abaixo, área externa e interior da igreja de Santa Maria delle Grazie, onde está A Última Ceia (Foto: Huang Zheng/Shutterstock.com)

Motivado por questões geopolíticas, Leonardo retornou para Florença em 1500 e de novo para Milão, em 1506. No período em Florença rivalizou com um jovem Michelangelo (1475-1564) e deixou inacabado o que seria outra obra-prima – A Batalha de Anghiari, que deveria ser pintada no Salão do Conselho de Florença no Pallazzo della Signoria –, mas também deu início a duas de suas pinturas mais espetaculares: Mona Lisa e A Virgem e o Menino com Santa Ana, ambas no acervo do Museu do Louvre.

Leonardo viveu ainda em Roma em um casarão na Villa Belvedere, elegante palácio de verão papal com zoológico, jardim botânico, pomares, viveiros de peixes e esculturas clássicas. Apesar das mordomias, pintou muito pouco no período, tendo se dedicado mais a estudos científicos e obras de engenharia, como a drenagens de pântanos próximos a Roma.

Florença, Milão e Roma
O gênio também viveu alguns anos em Roma, que tem atrações turísticas como a Piazza Navona

Nas andanças finais por essas três cidades, Leonardo sempre carregou consigo a Mona Lisa, que foi aprimorada ao longo dos anos. Segundo Isaacson, ele a levou até para a França, para onde tinha se mudado a convite do rei Francisco I. Ali na sua residência, próximo ao Castelo de Amboise, acrescentou minúsculas pinceladas e finas camadas ao longo de 1517. A tela estava em ateliê quando ele morreu.